“Empreendedorismo não é criar empresas”
Frederico Rosa, cofundador da Inspira Barreiro e candidato à CM do Barreiro
POR LINK TO LEADERS EM 19 JUNHO, 2017

Frederico Rosa, eleito o Melhor CEO e Melhor Gestor de Pessoas de 2016, cofundador da Inspira Barreiro e agora candidato à presidência da Câmara Municipal do Barreiro com o apoio do Partido Socialista, foi entrevistado pelo Link to Leaders.

O que é que se pode esperar de alguém que ganhou o prémio de Melhor Gestor de Pessoas e Melhor CEO de 2016 se for eleito presidente de uma Câmara Municipal?
Pode esperar-se o mesmo (quer tivesse ganho prémios ou não), pois não são eles que definem o meu trabalho, são no máximo uma consequência dele. E é nessa perspetiva que, assumindo a presidência da Câmara Municipal do meu concelho, podem contar com uma grande entrega, paixão e dedicação no trabalho, aplicando os mesmos princípios que me orientam sempre: planeamento e visão estratégica, rigor na execução, compromisso com os resultados que queremos alcançar e foco nas pessoas que servimos. Com os trabalhadores da autarquia, o elo fundamental no serviço público municipal (os eleitos estão sempre de passagem), o compromisso e a exigência é de lealdade e honestidade no papel que cada um desempenha, focando-nos no trabalho, na performance, no seu bem estar pessoal e num balanço trabalho-família equilibrados como eixos primordiais de ação interna.

Tendo estudado vários anos em Inglaterra e nos Estados Unidos, consegue ver a diferença entre as ferramentas que são dadas aos alunos no estrangeiro e as que são dadas aos alunos portugueses?
Bem, eu não estive vários anos fora, residi sempre no Barreiro, tive sim a oportunidade de estudar (em pós graduação e em formações especializadas) nos países referidos. Pessoalmente sinto que as universidades portuguesas, nomeadamente as que frequentei (Católica e ISCTE) estão bem preparadas para formar os nossos alunos. Contudo, o que sempre procurei foi valorizar e procurar a maior diversidade de pensamentos e visões, porque olho para a formação como o maior investimento que devo fazer em mim.

Neste aspeto, penso que mais do que as universidades, cada um de nós deve tentar compreender o Mundo a partir da maior diversidade de pontos de vista possíveis. Tendemos a ver a sociedade a “preto e branco”, ou como “nós versus os outros”, quando na verdade há tantas sinergias para serem criadas e tantas pontes para serem construídas entre os mais diversos pontos de vista.

Quais são as principais estratégias que tem pensadas para dinamizar a economia do concelho do Barreiro?
O município do Barreiro deve-se posicionar como um agente impulsionador do desenvolvimento local, sendo um criador de sinergias e trabalhando o concelho como sendo amigo do investimento, desde logo derrubando barreiras burocráticas para quem cá se quiser instalar e para quem já cá tem o seu negócio. Devemos, entre outras coisas, promover uma política de desenvolvimento sustentável, valorizando o nosso território e o nosso comércio local, potenciando a mensagem aos barreirenses para fazerem compras no Barreiro, numa estratégia articulada como o nosso tecido económico. Devemos em simultâneo promover eventos regulares em todo o concelho para trazer as pessoas para fora das suas casas e aumentar a notoriedade e a imagem do Barreiro na população dos concelhos vizinhos. Iremos ainda dinamizar a interação entre escolas, empresas, IPSS, clubes desportivos e associações, criando mecanismos de contacto regular.

Espaços de incubação de empresas, laboratórios de prototipagem, programas de ajuda ao microempreendedorismo, ensino de código (programação) e empreendedorismo nas escolas, apoio aos investidores e empresas que se querem instalar na cidade e uma estratégia de atração de empreendedores e talentos para virem desenvolver os seus projetos no Barreiro são igualmente medidas de ação que temos previstas. E claro, não podemos deixar de aproveitar o facto de estarmos a 20 minutos de barco de milhões de turistas que visitam Lisboa por ano, tendo que pensar na criação de uma oferta que os faça vir visitar o Barreiro e gastar aqui algum do seu dinheiro.

Há mais de quatro mil pessoas desempregadas no município, destas cerca de 70% têm mais de 35 anos e 20% têm mais de 55. Em que setor é que se pode apostar para diminuir estes números?
O desígnio é aumentar a criação líquida de empregos, pois infelizmente no estado atual em que o Barreiro se encontra não podemos desperdiçar investidores que aqui queiram desenvolver a sua atividade. Claro está que sempre numa lógica de sustentabilidade e de adequação ao bem-estar dos barreirenses. Mas a realidade que me fala está muito relacionada com dois flagelos que são centrais para nós: o desemprego acima dos 35 anos, que reflete muitas vezes situações pessoas que por não encontrarem estabilidade acabam por não constituir família e por sair do concelho (ou mesmo do país) para poderem alcançar estas metas, contribuindo para a redução da população em idade ativa e para o envelhecimento da mesma, algo que atualmente está muito marcado na cidade.

Mais do que setores, e sabemos que temos alguns que podemos potenciar, o combate a este flagelo faz-se muito pelo que referi na resposta acima. E faz-se estando no terreno, conhecendo o que os empresários e investidores procuram, e esta é uma área onde temos um grande domínio para poder fazer a diferença.

Estão inscritas 4200 pessoas no centro de emprego do Barreiro, metade já está à procura de emprego há mais de um ano. Que medidas podem ser tomadas para reintroduzir estas pessoas no mundo do trabalho?
A ligação empresas, escolas, centros de formação e IEFP tem que ser muito forte e a criação de sinergias entre estas entidades tem que ser uma bandeira da nossa presidência. Num mundo que muda a grande velocidade, a oferta formativa adequada às necessidades das empresas tem que nascer desta relação estreita que queremos potenciar. Por isso queremos ter no Barreiro um centro Qualifica pois a formação de adultos é fulcral para a reinserção no mercado de trabalho.

Mas mais, é preciso criar com alguma regularidade Feiras de Emprego, onde as nossas empresas se deem a conhecer, o que fazem e o que precisem, onde os barreirenses possam saber quem está a recrutar e para o que, onde as micro e pequenas empresas possam saber que medidas existem no apoio à contratação, entre outras coisas. A comunicação entre todos é fundamental e nós sabemos que há muito pouca sinergia entre estes atores no Barreiro.

Estando perto da população e compreendendo quais são as necessidades do concelho, quais foram, na sua opinião, as medidas que deveriam ter sido tomadas nos últimos anos para melhorar a qualidade de vida dos barreirenses?
Olho para este ciclo autárquico de doze anos, que agora termina e apenas deixo dois apontamentos, que me parecem ser bastante esclarecedores do atual “estado da arte”:

continuamos a trabalhar com um Plano de Diretor Municipal pensado no fim da década de 80 e aprovado no inicio da década de 90, ou seja, é do tempo da reunificação da Alemanha, do colapso da União Soviética, antes do uso do email ou mesmo da Internet, de quando o Bebeto celebrava o golo em homenagem ao filho que estava por nascer e que agora já é homem e assinou recentemente pelo Sporting. Não podemos continuar com este atraso se queremos uma cidade moderna, competitiva e virada definitivamente para o século XXI.
Há quatro anos atrás, antes das últimas eleições, foi anunciado a vinda de uma fábrica para a zona de Palhais, no Barreiro, que iria criar algumas centenas de postos de trabalho. Quatro anos depois, ganhamos um buraco e um monte de terra, fruto da deslocalização de terras. E fazendo votos para que a fábrica ainda venha para o Barreiro, nem que seja na véspera destas eleições porque seria bom para a cidade, sei que, até porque me tem sido comentado com alguma frequência, um investidor que pensa no Barreiro para investir pensa em casos como este.
Foi um dos embaixadores da InspiraBarreiro. Como surgiu esta iniciativa e que balanço faz?
O Inspira Barreiro tem sido um sucesso e em 3 anos já passaram por aqui cerca de 600 pessoas que ouviram histórias de sucesso, de insucesso, conselhos e dicas, conheceram novos projetos e deram a conhecer os seus, conheceram futuros colegas e parceiros de projeto, perceberam que o Barreiro tem uma Escola Superior e que há gente a pensar o futuro e com vontade de furar o marasmo. Tudo feito sem orçamento, com uma grande dose de paixão e vontade de romper com constrangimentos e olhar em frente. E já alguns projetos têm saído daqui!!

Caso se torne presidente, que outro tipo de iniciativas levará ao concelho para atrair empreendedores?
A criação de espaços de incubação de empresas, laboratórios de prototipagem, programas de ajuda ao microempreendedorismo, ensino de código (programação) e empreendedorismo nas escolas, apoio aos investidores e empresas que se querem instalar na cidade e uma estratégia de atração de empreendedores e talentos para virem desenvolver os seus projetos no Barreiro são fulcrais.

Dados de 2013 revelaram que a remuneração base mensal dos trabalhadores barreirenses é inferior em 372 € à média nacional. Qual é a razão para tal discrepância de salários entre o concelho a que se candidata e a média nacional?
O Barreiro é um concelho com pouco emprego qualificado e essa é uma realidade que tem que ser alterada. O combate é esta discrepância será uma consequência da nossa estratégia de desenvolvimento económico, da qual lhe referi alguns dos nossos pontos de vista em respostas anteriores. Uma coisa é certa, o caminho que foi percorrido mostrou-se incapaz de alterar esta realidade, pois o concelho é pouco atrativo para empresas inovadoras.

Em comparação à média nacional, a população do Barreiro é mais envelhecida. Números de 2015 mostram que a média nacional é de 3,2 indivíduos em idade ativa por idoso em contraste com os 2,5 do concelho. Como é que pensa atrair população ativa para o concelho (nomeadamente jovens)?
Vamos começar por tratar bem os que temos para estancar esta fuga de jovens do Barreiro! Não podemos ambicionar captar gente de fora se não formos capazes de tratar bem os barreirenses que ainda cá estão, que tem vinculo familiar, histórico e emocional a esta terra. Aqui é fundamental potenciar o eixo Trabalho – Família – Lazer, apostando na oferta Educativa, Desportiva e Cultural para traçar um novo paradigma de cidade. O Barreiro tem que voltar a ficar na moda e voltar a ser uma centralidade na vida dos jovens.

Quais os grandes desafios que os empreendedores portugueses enfrentam hoje em dia?
Vou-lhe apenas referir um, neste tema que é tão debatido e que tem opiniões tão diversas: para mim empreendedor não é profissão, é um estado de espírito e uma forma de abordar o mundo. Onde outros descobrem problemas, nós vemos soluções. Por isso o grande desafio que acho que existe é o de não sermos empreendedores porque está na moda ou porque queremos criar uma empresa. Sejamos empreendedores porque a nossa forma de estar é a de não ficar com os braços cruzados. E com a quantidade de “velhos do Restelo” que por aí proliferam, donos da verdade, sempre com uma lente nova para ver a realidade e prontos a deitar abaixo que não é do seu status quo, bem que precisamos desta nova forma de estar.

Um conselho para quem está a criar um negócio em Portugal?
Crie um modelo de negocio, teste o seu modelo em contexto real, oiça o que os seus futuros clientes querem e precisam, aprimore a sua oferta com base neste feedback e volte a testar o seu produto. Não espere pelo universo perfeito para sair à rua e testar o seu conceito. Deixe a parte de criar uma empresa para último: empreendedorismo não é criar empresas, isso é apenas um ato burocrático. E venha para o Barreiro realizar os seus projetos!

in linktoleaders.com/empreendedorismo-nao-criar-empresas